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26/10/2026

Jogo Bruto

Todos perdemos ou todos ganhamos!

JOGO BRUTO

Alguns viajarão em carros luxuosos. Outros, em veículos simples. Muitos dependerão do transporte público. E há quem ainda precise caminhar.

Mas a estrada é uma só.

Passadas as eleições, uma pergunta precisa ser feita: afinal, quem ganhou e quem perdeu?

Lula venceu as eleições. Pouco mais de 50% dos votos válidos lhe deram o direito de governar o Brasil. Mas não podemos ignorar que outros mais de 48% dos eleitores escolheram um caminho diferente. São milhões de brasileiros que pensam de outra maneira, acreditam em outro modelo de gestão e tinham outras expectativas para o futuro do país.

E agora? O Brasil será bom para os 51% e ruim para os 49%?

Claro que não!

A democracia escolhe o governante pela maioria dos votos, mas as consequências dessa escolha são compartilhadas por todos. O Brasil real não é dividido em dois países. Ou avançamos juntos, ou sofremos juntos.

A eleição tem um vencedor. O Brasil, porém, não pode ter uma metade condenada à derrota.

Pense comigo.

Quando você vai ao supermercado, o preço do arroz, da carne, do feijão e do leite não muda conforme o candidato em quem votou. O produto na gôndola custa o mesmo para quem escolheu Lula, para quem votou no adversário e até para quem anulou o voto.

Na bomba de combustível também não existe preço para eleitor de esquerda ou de direita. O litro é o mesmo. O pedágio é o mesmo. Os buracos nas estradas não escolhem partido, assim como uma rodovia bem conservada beneficia qualquer cidadão que passe por ela.

As taxas de juros do cartão de crédito, do financiamento da casa ou do carro não perguntam sua preferência política. Elas atingem brasileiros de todos os lados, embora nem todos sofram da mesma maneira.

E aqui existe uma diferença que merece nossa atenção.

Quem tem dinheiro continuará tendo vantagens que a grande maioria dos brasileiros não possui. Pode escolher um bom plano de saúde, uma escola particular para os filhos, comprar à vista, negociar descontos e conseguir melhores condições de crédito porque tem patrimônio e garantias.

Já o trabalhador comum, aquele que acorda cedo, enfrenta o trânsito, cumpre suas obrigações e faz contas para chegar ao fim do mês, continuará dependendo muito mais das decisões econômicas e políticas tomadas por quem governa.

Na fila do SUS não existe atendimento reservado aos 51% ou aos 49%. Se o sistema funciona bem, todos ganham. Se falta médico, medicamento ou estrutura, o sofrimento não distingue ideologia.

Na educação pública acontece a mesma coisa. Uma escola de qualidade transforma a vida de crianças de qualquer família. Uma escola abandonada compromete o futuro de uma geração inteira, independentemente da escolha política dos pais.

É por isso que não consigo enxergar a eleição como uma guerra entre vencedores e derrotados.

Hoje ouvi uma comparação interessante do ex-goleiro Marcos, ídolo do meu Palmeiras. É como se um goleiro desejasse que seu próprio zagueiro jogasse mal. Qual seria o sentido disso? Se a defesa falha e o time perde, todos acabam derrotados.

O Brasil é esse time.

Podemos discordar do técnico, questionar a escalação, criticar a estratégia e até acreditar que outro comandante faria um trabalho melhor. Mas torcer para que o time fracasse apenas para provar que tínhamos razão seria torcer contra nós mesmos.

E eu me recuso a fazer isso.

Hoje escrevi em uma publicação no Instagram algo que vem sinceramente do meu coração: oro para que dê certo. Oro para que minhas ideias sobre política e gestão estejam erradas.

Talvez seja a primeira vez na minha vida em que eu realmente queira estar errado em uma avaliação política.

E como quero!

Não quero ser como aquela pessoa que, diante de uma dificuldade, cruza os braços e dispara, com certa satisfação: “Eu avisei!”

Não! Mil vezes não!

Quero poder olhar para quem fez uma escolha diferente da minha e dizer: “Parabéns! Vocês tinham razão. Que bom que deu certo!”

Porque, se o Brasil melhorar, minha vida também melhora. A vida dos meus filhos, dos meus amigos, dos meus vizinhos e de milhões de brasileiros também poderá melhorar.

Ter razão em uma discussão política jamais será mais importante do que ver o povo brasileiro vivendo melhor.

E sabe por quê?

Porque eu também sou povo.

Sou trabalhador. Trabalho muito, todos os dias, muitas vezes sem horário, sem escolher sábado, domingo, feriado ou madrugada. Tenho que levantar, correr atrás, produzir e fazer acontecer, porque as contas não esperam, os compromissos não desaparecem e a vida não para para ninguém.

Como tantos brasileiros, sei que a realidade é muito diferente daquela que aparece nos discursos de campanha.

É fácil falar em prosperidade quando não se precisa escolher qual conta pagar primeiro. É fácil defender decisões econômicas quando o aumento dos juros não ameaça o orçamento da família. É fácil falar em paciência quando a geladeira está cheia e o salário não depende do esforço diário.

Mas o Brasil de verdade não vive nos palácios.

Vive nas ruas, nas fábricas, no comércio, nas propriedades rurais, nas oficinas, nas escolas, nos hospitais e nas casas de milhões de trabalhadores que querem apenas uma oportunidade de construir uma vida digna.

E isso me faz lembrar outra comparação com o futebol.

Imagine um estádio lotado. Alguns torcedores estão nos camarotes luxuosos, outros nas cadeiras especiais, muitos nas arquibancadas e milhares atrás dos gols.

Os lugares são diferentes. O conforto também. Uns pagaram muito, outros fizeram sacrifícios para comprar o ingresso.

Mas, quando o time perde, a tristeza alcança todos. E, quando vence, a alegria toma conta do estádio inteiro.

É claro que as consequências não são iguais. Quem está no camarote provavelmente voltará para casa com muito mais conforto do que aquele torcedor que economizou durante semanas para assistir à partida.

E existe ainda quem ganha dinheiro com o espetáculo, independentemente do resultado: os negócios que lucram com a multidão, os interesses que cercam o jogo e aqueles que fazem da paixão popular uma fonte de riqueza.

Na política também é assim.

Enquanto milhões discutem, brigam, desfazem amizades e até rompem relações familiares por causa de candidatos, uma parcela muito pequena ocupa os espaços de poder e desfruta das vantagens que acompanham esses cargos.

O candidato vencedor conquistou o mandato. Seu grupo político conquistou o direito de governar. Mas isso não significa que os milhões de brasileiros que votaram nele tenham automaticamente conquistado uma vida melhor.

Ganhar uma eleição não é a mesma coisa que fazer um país vencer.

Essa é a grande diferença!

Não escrevo estas palavras por lamentação, ressentimento ou inconformismo com o resultado das urnas. Escrevo por constatação e, principalmente, por esperança.

Espero, de verdade, que a ressaca eleitoral passe rapidamente.

Que o dólar encontre estabilidade, que a Bolsa reflita confiança, que os preços caibam no bolso das famílias e que os juros permitam ao trabalhador sonhar com a casa própria, com um carro, uma geladeira nova ou com seu pequeno negócio.

Que a segurança pública deixe de ser motivo de medo. Que a educação ofereça oportunidades reais. Que a saúde funcione com dignidade. Que a infraestrutura avance e que o desenvolvimento alcance também aqueles que historicamente ficaram para trás.

E, acima de tudo, que o brasileiro volte a acreditar que trabalhar, produzir e agir corretamente são caminhos possíveis para melhorar de vida.

Não importa se esse brasileiro mora no Nordeste, no Sul, no Norte, no Centro-Oeste ou no Sudeste.

Não importa se votou em Lula, no adversário, em branco ou se não compareceu às urnas.

A fome não tem partido. O desemprego não tem ideologia. A violência não pergunta em quem você votou. E a esperança de uma vida melhor não deveria ter lado político.

A democracia estabelece que a maioria dos votos válidos decide quem governa. Mas a responsabilidade de quem vence é governar para todos, inclusive para aqueles que não lhe deram o voto.

Da mesma forma, quem perdeu a eleição não perdeu o direito de pensar diferente, de fiscalizar, de cobrar e de continuar defendendo suas convicções.

Respeitar o resultado não significa abandonar os próprios princípios. Torcer para o governo acertar não significa concordar com tudo o que ele faz.

Significa apenas compreender que o futuro do Brasil é maior do que qualquer disputa eleitoral.

Continuarei pensando como penso, defendendo aquilo em que acredito e questionando o que considerar errado. Não preciso mudar minhas convicções para desejar sinceramente o sucesso de um governo em que não votei.

Mas também não permitirei que minhas convicções sejam mais importantes do que o bem-estar do meu povo.

Porque, no fim das contas, estaremos todos na mesma estrada, pagando os mesmos pedágios, enfrentando os mesmos desafios e dependendo das condições que o país oferecer.

Alguns viajarão em carros luxuosos. Outros, em veículos simples. Muitos dependerão do transporte público. E há quem ainda precise caminhar.

Mas a estrada é uma só.

E é justamente por isso que precisamos desejar que ela seja boa para todos.

Aos que comemoram a vitória, desejo que suas expectativas sejam correspondidas. Aos que estão decepcionados, desejo serenidade e força para continuar participando da construção do país.

Quanto a mim, continuo aqui, trabalhando, acreditando e torcendo.

Torcendo para que minhas previsões estejam erradas.

Torcendo para que o Brasil dê certo.

Torcendo para que, daqui a alguns anos, possamos olhar para trás e reconhecer que a escolha feita pela maioria trouxe resultados positivos para todos.

E, se isso acontecer, não terei nenhuma dificuldade em dizer, de coração aberto:

“Eu estava errado. Vocês tinham razão. E graças a Deus por isso!”

Porque, no Brasil que eu desejo, não existem 51% de vencedores e 49% de derrotados.

Existem brasileiros.

Brasileiros que merecem respeito, oportunidades, segurança, dignidade e esperança.

A urna decidiu quem governa. Agora, os resultados dirão se o Brasil venceu.

E que fique uma última reflexão:

Quando um governo fracassa, não é apenas a oposição que sofre. Quando um governo acerta, não é apenas quem votou nele que ganha.

No fim, todos perdemos ou todos ganhamos.

E eu, sinceramente, quero que todos nós ganhemos!

 

Rudy Roger Vaz é jornalista e comunicador há mais de 35 anos, formado em Marketing e Propaganda, com especialização em Marketing Político. Empresário, diretor de Esportes de Sinop e organizador do HECO, é apaixonado pelo esporte e pela vida. Acredita na democracia, no respeito às diferenças e na liberdade de pensamento. Na coluna Jogo Bruto, compartilha opiniões e reflexões sobre política, sociedade e comportamento, com independência e linguagem direta.

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