Apesar de, e não porque!
É muito fácil gostar de quem pensa como nós. Amar quem concorda com nossas opiniões, admirar quem toma as atitudes que esperamos e conviver com pessoas que fazem parte do nosso círculo de amizades. Isso é confortável. Não exige muito esforço, não desafia nossas convicções e, principalmente, não coloca à prova aquilo que tanto gostamos de dizer que temos: amor ao próximo.
Mas será que sabemos amar de verdade?
Porque o amor, quando é verdadeiro, não deveria existir apenas porque alguém pensa como nós, age como esperamos ou vive de acordo com nossos valores. Ele precisa existir apesar de nossas diferenças.
E talvez esteja aí um dos maiores desafios da humanidade: aprender a amar apesar de, e não apenas porque.
É fácil defender o respeito quando estamos entre iguais. Difícil é um heterossexual compreender e respeitar a realidade de uma pessoa LGBTQIA+, mesmo sem compartilhar suas escolhas ou experiências. É fácil dizer que não somos racistas. Difícil é, sendo branco, procurar compreender a dor de quem sofre discriminação pela cor da pele.
É muito fácil condenar quem recebe Bolsa Família quando nunca precisamos olhar para nossos filhos sem saber o que colocar na mesa. Difícil é compreender a angústia de um pai ou de uma mãe que depende daquela ajuda para garantir o mínimo de dignidade à família.
Também é fácil julgar uma mulher que permanece em um relacionamento violento. Difícil é compreender o medo de quem sofre agressões, depende financeiramente do agressor, tem filhos para criar e não consegue enxergar uma saída. De fora, todo mundo sabe o que faria. Mas ninguém conhece verdadeiramente o peso de uma dor que nunca carregou.
Nós nos tornamos especialistas em julgar histórias das quais conhecemos apenas a capa.
E, quando olho para tudo isso, lembro de um dos ensinamentos mais profundos do cristianismo.
A Bíblia nos ensina a suportar uns aos outros em amor. Mais do que isso, Jesus nos desafia a amar até mesmo nossos inimigos.
Você já parou para pensar na grandeza dessa exigência?
Na cruz, em meio à dor, à humilhação e à crueldade humana, Jesus encontra forças para dizer ao Pai:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” (Lucas 23:34)
Que lição extraordinária!
Enquanto nós muitas vezes não conseguimos perdoar uma palavra atravessada, uma opinião contrária ou uma escolha política diferente, Cristo, no momento de seu maior sofrimento, nos ensina o verdadeiro significado do amor.
E aqui chego à reflexão que gostaria de compartilhar neste momento tão importante para o Brasil.
Amanhã teremos uma eleição. O país está dividido. Famílias discutem, amizades se desgastam, pessoas deixam de se falar e relacionamentos são colocados à prova por causa da política.
Confesso que também preciso fazer minha reflexão.
Quantas vezes julguei pessoas por não conseguirem enxergar aquilo que, para mim, parecia tão evidente? Quantas vezes me irritei por alguém defender ideias que considero equivocadas? E quantas dessas mesmas pessoas certamente fizeram julgamentos semelhantes a meu respeito?
Talvez todos nós tenhamos errado mais do que gostaríamos de admitir.
Vimos nordestinos sendo atacados por suas escolhas. Sulistas sendo rotulados por suas posições. Regiões inteiras sendo tratadas como se seus habitantes pensassem todos da mesma maneira. Brasileiros discriminando brasileiros, como se o lugar onde alguém nasceu determinasse seu caráter, sua inteligência ou sua dignidade.
Que contradição!
Somos uma única nação, mas às vezes parece que procuramos motivos para deixar de nos reconhecer como irmãos.
Tenho minhas convicções políticas. Tenho minha visão sobre o Brasil que desejo, sobre segurança, justiça, oportunidades, desenvolvimento e o futuro que precisamos construir. Não escondo minhas posições e não pretendo abrir mão do direito de defendê-las.
Mas existe algo que considero ainda maior do que minhas convicções: o respeito à dignidade de quem pensa diferente de mim.
Amanhã cada brasileiro terá a oportunidade de fazer sua escolha. Ouvimos propostas, acompanhamos debates, conhecemos candidatos e temos a responsabilidade de decidir o caminho que consideramos melhor para o país.
Mas, independentemente do resultado, quero continuar amando meus amigos, minha família e as pessoas que fazem parte da minha vida.
Não porque votaram como eu. Não porque concordaram comigo. Não porque enxergam o mundo pelos meus olhos.
Mas apesar de nossas diferenças.
E isso não significa concordar com tudo, aceitar injustiças ou abandonar princípios. Significa compreender que discordar de uma ideia não nos dá o direito de desprezar uma pessoa.
Quero continuar acreditando na força do amor para transformar vidas. Não necessariamente para mudar a maneira como alguém pensa, mas para que possamos, juntos, melhorar a vida de todos.
Porque, no fundo, o que realmente importa?
A vida não acontece apenas na política. Ela acontece dentro de casa, no trabalho, nas amizades, nas relações que construímos e nas oportunidades que temos de fazer o bem.
E em todos esses lugares somos desafiados diariamente a escolher entre compreender ou condenar, acolher ou rejeitar, perdoar ou alimentar ressentimentos.
Julgar o defeito do outro para justificar nossas próprias atitudes é fácil. Difícil é reconhecer que também somos imperfeitos e, mesmo assim, escolher permanecer, respeitar e amar.
Tenho aprendido que amar incondicionalmente não significa aceitar qualquer comportamento. Significa não transformar as diferenças em motivo para negar humanidade, respeito ou compaixão.
Na minha fé cristã, existe algo que considero fundamental: posso falar do amor de Deus para você, compartilhar aquilo em que acredito e testemunhar o que Ele representa em minha vida. Mas não posso obrigá-lo a acreditar. A fé não nasce da imposição. A transformação do coração é obra do Espírito Santo.
E existe outro ensinamento que deveria nos fazer pensar antes de apontar o dedo: com a medida com que julgarmos, também seremos julgados.
Quantos de nós suportaríamos receber o mesmo julgamento severo que fazemos dos outros?
A vida é um exercício diário de convivência, aprendizado, erros, acertos e perdão. E esse exercício, um dia, terminará.
Quando chegar esse momento, o que realmente terá valido a pena?
As discussões que vencemos? As pessoas que conseguimos humilhar? Os argumentos que usamos para provar que estávamos certos?
Ou os abraços que demos, as mãos que estendemos, as amizades que preservamos e as pessoas que ajudamos a levantar?
No fim, todos nós estamos construindo alguma coisa: pontes ou muros.
E talvez a grande pergunta não seja quantas pessoas pensam como nós, mas quantas conseguimos respeitar e amar mesmo pensando diferente.
Amanhã teremos vencedores e derrotados nas urnas. Mas que o Brasil não saia derrotado naquilo que deveria nos unir: nossa humanidade.
Que a política não seja maior que a amizade. Que a opinião não seja maior que o respeito. Que nossas convicções não sejam desculpas para a intolerância.
Não é fácil conviver com o contraditório. Não é fácil compreender quem vive uma realidade tão diferente da nossa. E, certamente, não é fácil amar quem nos contraria.
Mas, se olharmos para o bem comum, encontraremos muito mais razões para nos aproximar do que para nos afastar.
Porque amar quem concorda conosco é simples. O verdadeiro desafio é continuar amando quem discorda.
E é assim que quero seguir minha vida: com minhas convicções, meus defeitos, minha fé e minha disposição de aprender.
Sem exigir que o outro seja igual a mim para merecer meu respeito.
Afinal, o amor que depende de concordância é apenas uma relação de conveniência.
O verdadeiro amor é aquele que permanece apesar das diferenças, e não apenas por causa das semelhanças.
Incondicional!
Rudy Roger












































