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23/10/2026

Eleições 2026

*A quem pertencem as ruínas?*

Por Jhenifer Heinrich

É sexta-feira. Em algum lugar do Brasil, duas pessoas estão brigando por causa de política. Talvez sejam irmãos. Talvez antigos amigos. Talvez um pai e uma filha que já não conseguem terminar o almoço sem transformar a mesa em um campo de batalha.

Não importa muito quem começou. Importa que, enquanto discutem, a casa continua precisando de reparos.
O telhado tem goteiras. A instalação elétrica é antiga. Falta comida em alguns armários. Há quartos confortáveis demais e gente demais dormindo na sala. Mas os moradores estão ocupados decidindo quem tem mais culpa pelos problemas da casa.

Um grupo acredita que tudo começou quando os últimos responsáveis assumiram. O outro garante que a casa já estava condenada muito antes. Uns querem recuperar o que dizem ter sido uma época de ouro. Outros prometem construir algo inteiramente novo. E ninguém parece disposto a admitir que nem tudo era bom antes, nem tudo é ruim agora e nem toda solução cabe dentro de uma ideologia.

O problema é que, de tanto defender suas versões da história, alguns moradores passaram a defender até os defeitos de quem escolheram para representá-los. Se o erro é do meu lado, existe um contexto. Se é do outro, é imperdoável. A corrupção muda de gravidade conforme o partido. A liberdade de expressão muda de significado conforme quem fala. A democracia é indispensável, desde que produza o resultado desejado.

E a verdade, coitada, precisa apresentar documento antes de entrar.

Talvez uma das coisas mais difíceis de admitir seja que podemos estar certos sobre algumas coisas e profundamente enganados sobre outras. Que pessoas inteligentes podem defender ideias ruins. Que boas intenções não garantem bons resultados. E que reconhecer um acerto de quem pensa diferente não significa abandonar tudo aquilo em que acreditamos.

Mas parece que já não basta ter opinião. É preciso pertencer. Pertencer a um lado, repetir suas palavras, comprar suas indignações, justificar suas contradições. Pensar por conta própria virou, em certos ambientes, uma espécie de traição.

Eu me pergunto em que momento passamos a confundir convicção com incapacidade de rever uma ideia. Porque convicção é saber por que acreditamos em alguma coisa. Fanatismo é continuar acreditando mesmo depois que os fatos nos obrigam a pensar. E existe uma diferença enorme entre as duas.

Enquanto isso, as crianças crescem dentro da casa. Elas não sabem exatamente o que é esquerda ou direita. Não entendem as pesquisas eleitorais, as disputas partidárias ou os discursos sobre economia. Mas entendem quando os adultos gritam.

Percebem quando uma pessoa deixa de ser respeitada por pensar diferente. Aprendem quando a mentira é tolerada porque beneficia alguém de quem gostamos. Observam quando a crueldade ganha o nome de sinceridade e quando a indiferença é apresentada como mérito. Estamos ensinando política muito antes de explicar o que é uma eleição. E talvez seja essa a parte que mais me assusta.

Porque o Brasil que deixaremos aos nossos filhos não será feito apenas das decisões tomadas em Brasília. Será feito também daquilo que normalizamos dentro de casa. Da maneira como tratamos as pessoas. Do valor que damos à educação. Da relação que construímos com a verdade. Da capacidade de reconhecer a humanidade de alguém sem precisar concordar com suas ideias.

Isso não significa que todas as ideias sejam igualmente aceitáveis. Há diferenças que precisam ser discutidas, direitos que precisam ser protegidos e injustiças que não desaparecem em nome da cordialidade. Respeitar pessoas não exige respeitar qualquer argumento, mas discordar também não deveria nos dispensar de pensar.

É sexta-feira. Domingo escolheremos, mais uma vez, quem terá as chaves da casa. Na segunda-feira, uns estarão comemorando. Outros, indignados. Mas o telhado? Ele continuará lá. As crianças também. E um dia, quando a casa for delas, talvez não lhes interesse tanto saber quem venceu a discussão.

*Vão querer saber por que deixamos chegar a esse ponto.*

_Jhenifer Heinrich é jornalista, especialista em comunicação estratégica e política. Há mais de 14 anos trabalha com palavras, narrativas e pessoas. Fala sobre política, sociedade, parentalidade e as contradições de viver em um mundo onde quase todo mundo tem certeza de alguma coisa._

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