Outro dia, publiquei nos stories uma indicação de leitura: A Revolução dos Bichos, de George Orwell.
Não foi uma indicação inocente. Eu tinha minhas intenções. Queria que algumas pessoas lessem aquele livro e, quem sabe, reconhecessem nele os perigos de seguir cegamente um líder político.
Até que uma amiga respondeu:
“Jheni, você não tem ideia de quantos amigos de direita extrema meus já indicaram esse mesmo livro.”
Li a mensagem uma vez. Depois outra.
E ri.
Não exatamente de humor. Era aquele riso que aparece quando a realidade nos apresenta uma contradição tão evidente que chega a ser constrangedora.
Eu queria que eles lessem Orwell para perceber o que estavam fazendo. Eles, aparentemente, queriam que pessoas como eu lessem Orwell para perceber exatamente a mesma coisa.
O mesmo livro. As mesmas páginas. As mesmas palavras.
E duas pessoas saindo da leitura convencidas de que o problema é a outra.
Passei dias pensando nisso.
Existe uma expressão que tomou conta das redes sociais nos últimos anos: POV. É a abreviação de point of view, ponto de vista, em inglês.
A expressão já existia muito antes do TikTok. Na literatura, diz respeito à perspectiva de quem conta uma história. No cinema, pode representar a câmera assumindo os olhos de um personagem. Nas redes sociais, ganhou popularidade em vídeos que convidam o espectador a experimentar determinada situação como se estivesse dentro dela.
Com o tempo, virou trend. E, como acontece com quase tudo na internet, passou a ser usada até quando não faz muito sentido.
Há uma ironia nisso.
Aprendemos a escrever POV em três letras, mas continuamos tendo uma dificuldade imensa de fazer aquilo que a expressão sugere: enxergar a partir de outro lugar.
Talvez porque ninguém enxergue apenas com os olhos.
Enxergamos com tudo o que nos aconteceu.
Uma pessoa que cresceu cercada de afeto talvez reconheça amor onde outra, acostumada à violência, reconheça perigo. Alguém que passou a vida precisando se defender pode interpretar uma pergunta como ataque. Quem aprendeu desde cedo que discordar era desrespeitar talvez passe a vida inteira confundindo obediência com amor.
Duas pessoas podem ouvir a mesma frase e experimentar sentimentos completamente diferentes.
Uma escuta cuidado. A outra, controle.
Uma reconhece liberdade. A outra, abandono.
E nenhuma delas precisa estar mentindo sobre o que sentiu.
Isso me fascina. E me inquieta.
Porque significa que, muitas vezes, não estamos discutindo apenas aquilo que aconteceu. Estamos discutindo tudo o que aconteceu conosco antes.
Talvez por isso seja tão difícil convencer alguém de alguma coisa.
Quando apresentamos um argumento, imaginamos que estamos oferecendo uma informação. Mas quem o recebe não é uma folha em branco. É alguém que já construiu uma maneira de compreender o mundo. E essa construção tem alicerces profundos: família, religião, experiências, perdas, afetos, medos, pertencimento.
Às vezes, mudar de opinião não significa apenas admitir um equívoco. Significa questionar pessoas que amamos, valores que herdamos e escolhas que fizemos durante anos.
Há verdades que custam muito caro para serem reconhecidas.
Penso também na Bíblia.
Poucos livros foram tão lidos, interpretados, debatidos e utilizados para orientar a vida humana. E, no entanto, quantas maneiras diferentes existem de compreender seus ensinamentos?
Há tradições religiosas que divergem profundamente sobre passagens das mesmas Escrituras. Há pessoas que encontram nelas o fundamento de uma vida dedicada ao acolhimento e outras que as utilizam para justificar a exclusão.
Não é apenas uma questão de ponto de vista. Existem contextos históricos, traduções, doutrinas e disputas de poder. Mas existe também o ser humano diante da palavra escrita, tentando encontrar nela algum sentido para a própria existência.
E talvez esteja aí uma das nossas maiores contradições.
Procuramos nos livros respostas sobre o mundo, mas frequentemente encontramos reflexos de nós mesmos.
Voltando a Orwell, há uma distinção importante. A Revolução dos Bichos não é uma história sem contexto, aberta a qualquer interpretação que nos agrade. É uma crítica à Revolução Russa, ao stalinismo e à maneira como o poder pode corromper até os ideais que nasceram para combatê-lo.
Mas a força da literatura está também em permitir que uma história atravesse seu próprio tempo.
A corrupção do poder não pertence a uma única ideologia. A manipulação da linguagem não é exclusividade de um partido. A devoção a líderes que deixam de ser questionados é um perigo reconhecível em diferentes sociedades.
O que me impressiona não é que pessoas de posições políticas opostas encontrem sentido no mesmo livro.
É que ambas possam terminar a leitura sem sequer considerar a possibilidade de também estarem sendo criticadas.
E aqui preciso incluir a mim mesma.
Porque, quando publiquei aquela indicação, eu não estava exatamente procurando compreender o ponto de vista de ninguém. Eu queria que outras pessoas compreendessem o meu.
Na minha cabeça, o livro funcionaria como uma espécie de espelho. Bastaria que elas olhassem com atenção para reconhecer seus próprios equívocos.
Não me ocorreu que talvez estivessem segurando o mesmo espelho na minha direção.
E foi essa percepção que ficou comigo.
Talvez o maior desafio não seja enxergar o mundo pelos olhos de outra pessoa, mas reconhecer os limites do nosso próprio olhar.
Afinal, de que adianta mudar o ponto de vista se continuamos procurando apenas aquilo que queremos encontrar?
Talvez a pergunta não seja o que cada um de nós vê no espelho.
Mas o que escolhemos não enxergar.

Por Jhenifer Heinrich













































