Eleições 2026

Urnas renovam 25% da Assembleia e encerram ciclos de famílias tradicionais em Mato Grosso

Botelho, Júlio Campos e os Riva ficam pelo caminho em uma eleição que mantém 75% da Assembleia, mas manda um recado claro sobre mudança

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso não será completamente nova a partir de 2027, mas certamente será diferente.

As urnas de 4 de outubro produziram uma renovação de 25% na composição da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). Dos 24 deputados estaduais eleitos, 18 conseguiram renovar seus mandatos, enquanto seis cadeiras terão novos ocupantes na próxima legislatura.

O número, à primeira vista, pode parecer pequeno. Afinal, três em cada quatro deputados continuarão na Casa.

Mas basta olhar para os nomes que ficaram pelo caminho para perceber que a eleição de 2026 produziu uma mudança política muito mais significativa do que os 25% sugerem.

Entre as principais baixas estão Eduardo Botelho, Júlio Campos, Paulo Araújo, Elizeu Nascimento e Juca do Guaraná, todos deputados que disputaram a reeleição e não conseguiram uma das 24 vagas. A sexta cadeira que muda de mãos era ocupada por Janaina Riva, que decidiu deixar a disputa pela Assembleia para concorrer ao Senado e também não conseguiu se eleger.

Botelho: o fim de uma longa trajetória na Assembleia

Talvez nenhuma derrota tenha produzido tanto impacto dentro da própria Assembleia quanto a de Eduardo Botelho.

Com longa trajetória no Legislativo e passagem pela presidência da Casa, Botelho recebeu 37.359 votos, mas não conseguiu retornar ao Parlamento estadual.

A derrota é especialmente simbólica porque Botelho não era apenas mais um deputado na disputa. Durante anos, foi um dos principais nomes da política institucional de Mato Grosso e um dos homens mais influentes dentro da própria ALMT.

Agora, a partir de 2027, seu nome estará fora do plenário.

Os Campos também perdem espaço

Outro resultado de enorme peso político foi a derrota de Júlio Campos (União Brasil).

Com décadas de vida pública, Campos já foi prefeito de Várzea Grande, governador de Mato Grosso, deputado federal, senador e, mais recentemente, deputado estadual.

Em 2026, tentou permanecer na Assembleia, mas recebeu 18.517 votos e ficou fora da nova composição.

A derrota ganha uma dimensão ainda maior porque ocorre justamente quando seu irmão, Jayme Campos, encerra seu mandato no Senado sem retornar ao Executivo estadual.

Na prática, a família Campos chega a 2027 sem um representante eleito no Legislativo estadual ou federal de Mato Grosso. É o enfraquecimento de um dos grupos políticos mais tradicionais do Estado.

O sobrenome Riva também desaparece da Assembleia

Se a derrota de Júlio Campos representa o enfraquecimento de uma das famílias mais tradicionais da política mato-grossense, o caso dos Riva é ainda mais emblemático.

Janaina Riva, que ocupava uma cadeira na Assembleia desde 2015, deixou a disputa estadual para tentar uma vaga no Senado. Terminou em terceiro lugar, atrás de Mauro Mendes e Zé Medeiros.

A estratégia da família era manter a presença no Legislativo estadual por meio de Jéssica Riva, candidata a deputada estadual.

Não deu certo.

Jéssica também ficou fora das 24 cadeiras.

Com isso, pela primeira vez desde 1995, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso não terá um integrante da família Riva eleito entre seus deputados. A presença política da família no Parlamento estadual havia começado com José Riva, eleito em 1994 e empossado em 1995, e permaneceu por 32 anos.

É, portanto, mais do que uma derrota eleitoral. É o encerramento de um ciclo.

Não foi apenas Botelho, Campos e Riva

As urnas também retiraram da Assembleia outros nomes que faziam parte da atual composição.

Paulo Araújo (Republicanos), Elizeu Nascimento (Novo) e Juca do Guaraná (PSDB) também tentaram permanecer na Casa, mas não alcançaram uma das 24 cadeiras.

Enquanto eles deixam o Legislativo, seis nomes ocuparão as cadeiras que estarão disponíveis em 2027:

  • Samantha do Abilio (PL)
  • Alessandra Ferreira (Podemos)
  • Léo Bortolin (MDB)
  • Alcino Barcelos (PL)
  • Adelcino Lopo (Podemos)
  • Ulysses Moraes (Podemos)

Ulysses é um caso diferente: já exerceu mandato de deputado estadual anteriormente e retorna à Assembleia. Portanto, dos seis novos ocupantes, cinco são estreantes na composição atual e um está retornando à Casa.

25% de renovação, mas uma mensagem muito maior

É aqui que está talvez a principal leitura política da eleição.

Não seria correto dizer que o eleitor de Mato Grosso promoveu uma grande renovação da Assembleia. 75% dos deputados conseguiram permanecer.

Mas também seria um erro olhar apenas para esse percentual.

Porque a política não é feita apenas de números. É feita de símbolos.

E a mensagem das urnas passa justamente pelos nomes que ficaram de fora.

O eleitor manteve muitos parlamentares, mas também mostrou que mandato, tradição, sobrenome e influência política não são garantias de permanência no poder.

Botelho caiu.

Júlio Campos caiu.

Os Riva ficaram sem representação na Assembleia.

Outros nomes conhecidos também perderam suas cadeiras.

Ao mesmo tempo, novos nomes chegaram, incluindo duas mulheres, Samantha do Abilio e Alessandra Ferreira. Com isso, a ALMT volta a ter duas mulheres eleitas diretamente para mandatos titulares simultaneamente.

O eleitor não demoliu a velha Assembleia. Mas abriu espaço para outra

Talvez essa seja a leitura mais equilibrada do resultado.

O eleitor mato-grossense não fez uma revolução dentro da Assembleia. Fez algo mais silencioso: preservou boa parte do que já estava lá, mas retirou alguns dos nomes mais simbólicos da velha política estadual.

É como se as urnas dissessem:

“Alguns podem continuar. Outros precisam sair.”

E isso vale uma reflexão.

Durante décadas, Mato Grosso teve a política marcada por grandes sobrenomes, grupos familiares, alianças tradicionais e lideranças que pareciam ter lugar garantido nas estruturas de poder.

A eleição de 2026 mostra que esse modelo está mudando.

Não significa que os velhos grupos desapareceram definitivamente. Política não acaba em uma eleição. Eles podem voltar, lançar novos nomes, reconstruir alianças e tentar recuperar espaço.

Mas alguma coisa mudou.

O sobrenome deixou de ser suficiente.

A nova Assembleia terá que responder ao recado

A próxima legislatura terá uma responsabilidade importante.

Os eleitores não votaram apenas para trocar seis cadeiras.

Votaram para escolher 24 representantes que terão quatro anos para mostrar por que mereceram estar ali.

A cobrança será maior.

Porque se as urnas mostraram que ninguém possui cadeira cativa, a nova Assembleia terá de demonstrar que aprendeu a principal lição deixada pela eleição:

mandato não é propriedade, é confiança.

E confiança, como demonstraram as urnas de 2026, pode ser renovada — ou retirada.

A partir de fevereiro de 2027, a ALMT começa uma nova legislatura. Não será uma Assembleia completamente renovada.

Mas será uma Assembleia sem Botelho, sem Júlio Campos e, pela primeira vez em mais de três décadas, sem um Riva entre suas cadeiras.

E isso, por si só, já diz muita coisa sobre o Mato Grosso que saiu das urnas.

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