Alice, no País das Maravilhas, ataca mais uma vez.
O tempo passa, os palanques mudam, os discursos se renovam, mas uma velha frase continua servindo perfeitamente para a política de Alice: “Se você não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.”
A diferença é que, na política real, os caminhos quase sempre têm endereço, aliados e, principalmente, interesses que nem sempre é o da honra.
Rosana Martinelli, ex-prefeita de Sinop e segunda suplente de Wellington Fagundes, decidiu mudar de lado na eleição para o Governo de Mato Grosso. Depois de caminhar politicamente ao lado de Wellington e integrar a chapa que poderia levá-la novamente ao Senado, agora declarou apoio a Otaviano Pivetta.
E não foi uma mudança silenciosa.
A própria Rosana reconheceu, em entrevista, que, olhando para seu “cenário particular”, seria melhor apoiar Wellington. Ainda assim, justificou a escolha pela continuidade das obras e dos investimentos do governo.
Tudo legítimo. Apoio político é uma decisão individual.
Mas política também é feita de perguntas.
E a pergunta que ficou no ar é simples:
O que mudou?
Porque, quase ao mesmo tempo em que anunciou o rompimento político com Wellington, surgiu a informação de que Rosana deverá integrar o Conselho de Administração da Nova Rota do Oeste, empresa controlada pelo Governo de Mato Grosso por meio da MT Par. Segundo as notícias publicadas, o convite teria partido do próprio governador e a indicação ainda precisaria ser formalizada.
Coincidência?
Não existe coincidência na politica!
E justamente por isso a sociedade tem o direito de perguntar.
Quanto vale uma mudança de lado?
Nos bastidores circula a informação de que a participação no conselho poderia render algo próximo de R$ 30 mil mensais.
Mas a pergunta continua:
Quanto vale uma mudança de lado quando, junto com ela, aparece a possibilidade de ocupar um espaço remunerado dentro de uma estrutura ligada ao governo?
Alice no país das maravilhas já ocupou a cadeira de senadora como suplente de Wellington e construiu sua trajetória política dentro de um determinado campo. Agora, depois de mudanças partidárias e do fim da possibilidade de disputar uma vaga de deputada federal pelo MDB, aproximou-se do Coronel da Soja.
O próprio confirmou a aproximação e disse que Rosana “vai trabalhar” com seu grupo. Dias depois, ela apareceu ao lado de Pivetta em articulações políticas em Sinop.
É aí que entra a velha Alice, esta não muda.
Aquela personagem que parece estar sempre procurando o próximo caminho.
Se o caminho leva para um lado, vai.
Se amanhã aparecer uma estrada melhor do outro lado, muda.
E talvez essa seja a grande discussão: na política, mudar de opinião é legítimo. Mudar de projeto também. Mas o eleitor tem o direito de saber o que provocou a mudança.
E a tal ética?
Ética e honra não são palavras que deveriam ser usadas apenas quando ficam bonitas em discurso.
Também não pertencem exclusivamente a um lado político.
Quem muda de posição precisa explicar.
Quem oferece espaço precisa explicar.
E quem está olhando de fora também tem o direito de perguntar.
Não é preciso acusar ninguém de nada.
Basta fazer a pergunta que todo eleitor faria diante de uma mudança tão conveniente no calendário político:
foi convicção ou conveniência?
Porque, quando uma mudança política acontece exatamente no momento em que surge a possibilidade de ocupar um espaço de poder, a coincidência naturalmente chama atenção.
E quanto maior o benefício possível, maior deveria ser a transparência.
Alice continua procurando o caminho
O eleitor também tem o direito de desconfiar, questionar e comparar discursos com atitudes.
Afinal, na política, palavra tem peso.
E quando uma pessoa passa de um palanque para outro, especialmente quando os dois lados estão em disputa direta, não basta dizer que o caminho mudou.
É preciso explicar por quê.
Porque, no País das Maravilhas, qualquer caminho pode servir.
Mas no mundo real, principalmente quando existe dinheiro público, poder e eleição envolvidos, o caminho precisa ser iluminado pela transparência.
E talvez seja justamente isso que esteja faltando nessa história.
Não uma explicação sobre para onde Alice está indo.
Mas sobre o que ela encontrou no caminho que fez valer a pena mudar de direção.
