Eleições 2026

ARTIGO 4 — REFLEXÕES SOBRE POLÍTICA E DEMOCRACIA

Promessas, números e realidade: como avaliar quem quer governar o Brasil?

O Brasil está diante de mais uma decisão importante. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente em seu terceiro mandato, defendendo a continuidade de um projeto político conhecido dos brasileiros. Do outro, Flávio Bolsonaro, senador e representante de uma corrente política que propõe mudanças na condução do país.

Mas, antes de escolher um lado, precisamos fazer uma pergunta: estamos votando em projetos de país ou simplesmente repetindo nossas preferências políticas?

O debate eleitoral não deveria ser uma competição de acusações, medos e promessas. Deveria ser uma oportunidade para avaliar resultados, comparar propostas e decidir que Brasil queremos construir.

Lula: três mandatos e um modelo que precisa ser avaliado

Lula governou o Brasil entre 2003 e 2010 e retornou à Presidência em 2023. Seu partido também governou com Dilma Rousseff até 2016. São quase duas décadas de administrações federais petistas.

Seria injusto ignorar avanços sociais, políticas de combate à pobreza, ampliação do acesso ao ensino superior e iniciativas de inclusão econômica associadas a esses governos.

Mas também seria um erro ignorar problemas persistentes: dificuldades na saúde pública, qualidade insuficiente da educação, burocracia, pressão sobre as contas públicas, corrupção e desigualdades que continuam marcando a sociedade brasileira.

E aqui surge uma pergunta legítima, que não deveria ser interpretada como ataque pessoal ou ideológico:

Depois de tantos anos de influência desse projeto político, não chegou o momento de discutir uma mudança de modelo?

A continuidade pode representar experiência e estabilidade. Mas também precisa ser confrontada com resultados. Afinal, quanto tempo devemos conceder a um projeto para que consiga resolver problemas estruturais do país?

Flávio Bolsonaro: A ideia é mudança!

Flávio Bolsonaro apresenta propostas de redução da estrutura estatal, desburocratização, contenção de despesas e maior rigor na segurança pública. Lula, por sua vez, defende investimentos públicos, políticas sociais e valorização da renda.

São visões distintas sobre os caminhos do desenvolvimento.

Entretanto, representar uma alternativa não significa, automaticamente, oferecer uma solução melhor.

Flávio também precisa demonstrar como pretende financiar suas propostas, reduzir impostos sem prejudicar serviços essenciais, melhorar a educação, ampliar o acesso à saúde e gerar oportunidades.

A mudança pela mudança não basta. Ela precisa apresentar consistência, planejamento e capacidade de produzir resultados.

O eleitor tem o direito de exigir de Flávio a mesma responsabilidade que deve cobrar de Lula.

Programas sociais ou instrumentos eleitorais?

Uma questão delicada merece atenção: a utilização de decisões administrativas e programas sociais durante períodos eleitorais.

O Bolsa Família é uma política pública importante para milhões de brasileiros. Sua existência não deveria depender de quem ocupa a Presidência, e seus beneficiários não podem ser tratados como propriedade eleitoral de nenhum governo.

Em outubro de 2026, o governo anunciou a unificação dos pagamentos a partir do dia 21, antecipando depósitos que, pelo calendário original, ocorreriam até 30 de outubro. A justificativa oficial foi a prevenção dos impactos do fenômeno climático El Niño, com manutenção da medida em novembro e dezembro.

A explicação pode ser legítima. Mas o fato de a antecipação ocorrer às vésperas do segundo turno também autoriza questionamentos.

Por que exatamente nesse momento? Quais critérios técnicos fundamentaram a decisão? A medida seria adotada nas mesmas condições fora de um período eleitoral?

Em uma democracia madura, políticas sociais devem proteger o cidadão, nunca criar a sensação de que seus direitos dependem da permanência de determinado governante.

Democracia: precisamos superar a política do medo

Existe outro aspecto que considero fundamental.

O Congresso Nacional, o Judiciário, o Executivo e os órgãos de fiscalização possuem responsabilidades fundamentais. São instituições indispensáveis, mas não estão acima de críticas e precisam de aperfeiçoamento constante.

Confiar na democracia não significa acreditar que suas instituições sejam perfeitas. Significa defender que elas funcionem, respeitem seus limites e estejam submetidas à Constituição.

A conta das promessas sempre chega

Lula promete continuidade e ampliação de políticas públicas. Flávio promete mudanças, ajustes e maior eficiência econômica.

Mas existe uma realidade que ambos precisam enfrentar: o Brasil possui limitações orçamentárias, uma dívida pública elevada e demandas sociais que não podem ser ignoradas.

As propostas econômicas dos dois candidatos têm sido questionadas pela falta de detalhamento sobre como financiar determinados compromissos e equilibrar as contas públicas.

Não basta prometer mais benefícios, mais investimentos, menos impostos ou mais segurança.

É preciso explicar de onde virá o dinheiro, quais serão as prioridades, quais despesas poderão ser reduzidas e como medir os resultados.

O Brasil não precisa de um presidente que prometa tudo. Precisa de alguém que saiba escolher prioridades, administrar recursos e prestar contas à população.

O Brasil precisa escolher seu futuro, não apenas seu lado

Talvez a grande reflexão desta eleição não seja simplesmente decidir entre Lula e Flávio Bolsonaro.

É compreender se queremos continuar avaliando nossos governantes pela identificação ideológica ou se finalmente teremos maturidade para exigir resultados concretos.

Lula precisa responder por aquilo que seu projeto político realizou e por aquilo que ainda não conseguiu entregar.

Flávio precisa demonstrar que sua proposta de mudança é viável, responsável e capaz de produzir resultados melhores.

Ambos devem respeitar as instituições, a liberdade de expressão, o resultado das urnas e os direitos de todos os brasileiros, inclusive daqueles que pensam diferente.

E nós, cidadãos, precisamos abandonar a ideia de que criticar nosso candidato preferido significa favorecer o adversário.

A democracia não exige fidelidade a políticos. Exige compromisso com o país.

É legítimo perguntar se chegou a hora de mudar.

O que não podemos aceitar é transformar eleições em disputas de medo, enquanto problemas reais continuam sem solução.

Porque, depois que os palanques são desmontados, os discursos terminam e os votos são contados, a realidade permanece.

O cidadão continuará precisando de saúde, educação, segurança, emprego, renda e liberdade.

E é nessa realidade, longe das paixões eleitorais, que qualquer governo deverá ser julgado.

O Brasil não precisa de vencedores ideológicos. Precisa de governantes capazes de fazer o povo

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