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19/10/2026

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Rio Paraguai entra em alerta e seca ameaça transporte de grãos de MT

reprodução

A seca que atinge as principais hidrovias da Amazônia e do Pantanal colocou em alerta corredores estratégicos para o transporte de cargas e passageiros, com reflexos diretos sobre a logística de Mato Grosso. No Estado, o rio Paraguai apresenta níveis inferiores aos padrões históricos, enquanto as restrições à navegação nos rios Tapajós e Madeira ameaçam elevar os custos de escoamento da produção agrícola.

Relatório do Ministério de Portos e Aeroportos mostra que o rio Paraguai registrava apenas 77 centímetros em Cáceres (225 km a oeste de Cuiabá) no dia 30 de setembro. Para a mesma época do ano, a mediana histórica é de 1,42 metro.

A diferença de 65 centímetros evidencia a redução do volume de água em um dos principais rios do Pantanal mato-grossense. O documento federal aponta a persistência de seca extrema na bacia do Paraguai, situação que também atinge Mato Grosso do Sul.
Em Ladário (MS), o nível estava em 1,18 metro, diante de uma mediana histórica de 2,55 metros. Já em Porto Murtinho (MS), a medição indicava 2,38 metros, contra 4,48 metros normalmente registrados para o período.
A previsão é de que o rio permaneça abaixo de 1 metro em Ladário durante outubro e novembro, ampliando a preocupação com a navegação.

O alerta não significa que o transporte esteja suspenso. Entretanto, a redução da profundidade pode exigir adaptações nas operações, como diminuição da carga transportada pelas embarcações e restrições de circulação em determinados trechos.

PANTANAL SOB PRESSÃO – A hidrovia do Paraguai é uma importante ligação fluvial entre o Centro-Oeste brasileiro e os portos da Argentina e do Uruguai. O corredor atravessa o Pantanal e integra uma rede de transporte utilizada para a movimentação de mercadorias.
A redução do nível das águas afeta a capacidade operacional das embarcações e pode comprometer a regularidade do transporte.
O relatório federal relembra que, durante a estiagem de 2024, a movimentação de cargas na hidrovia caiu para 3,3 milhões de toneladas, redução de aproximadamente 58% em relação ao ano anterior.
O resultado demonstra a vulnerabilidade da navegação às secas prolongadas.
Para tentar preservar as condições operacionais, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que mantém contratos de manutenção no rio Paraguai, incluindo dragagem e adequação da sinalização.

Os serviços de manutenção estão previstos em R$ 69,6 milhões, além de R$ 15,42 milhões destinados à supervisão e R$ 9,57 milhões para a gestão ambiental. Os contratos estão no terceiro ano de execução, de um total de cinco.
Segundo a pasta, as dragagens de manutenção não têm como objetivo aprofundar permanentemente o leito dos rios, mas retirar sedimentos acumulados em trechos que dificultam a navegação.

TAPAJÓS AMEAÇA ESCOAMENTO – Além da situação no Pantanal, Mato Grosso acompanha com preocupação as condições do rio Tapajós, no Pará, uma das principais rotas de exportação da soja e do milho produzidos no Estado.
Grande parte dos grãos segue de caminhão pela BR-163 até os terminais de Miritituba, no município de Itaituba (PA). A partir dali, as cargas são embarcadas em barcaças que navegam pelo Tapajós em direção aos portos de exportação.
O relatório aponta profundidade de 3,15 metros em Itapaiúna e de 2,99 metros em Monte Cristo, dois pontos considerados críticos para a navegação.
Na estação de Itaituba, o nível do rio estava em 2,40 metros em 30 de setembro, depois de cair 1,91 metro ao longo do mês. Em Santarém, a medição era de 2,63 metros, redução mensal de 2,10 metros.

As projeções indicam que os níveis deverão permanecer abaixo da mediana histórica nas duas localidades.
A situação preocupa o setor produtivo de Mato Grosso porque limitações à navegação podem reduzir a capacidade de transporte das barcaças e obrigar a transferência de parte das cargas para outros corredores logísticos.
Essa mudança pode aumentar a utilização de caminhões e pressionar os custos do frete.
No primeiro bimestre de 2026, o Tapajós transportou 2,38 milhões de toneladas de mercadorias. Soja e milho representaram 86% desse volume, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos.

Em agosto, entidades do setor produtivo reunidas em mobilização liderada pela Frente Parlamentar da Agropecuária estimaram que a ausência de dragagem poderia provocar impacto de até R$ 850 milhões na cadeia produtiva.
O valor representa uma estimativa de risco econômico, e não prejuízo já confirmado.
A situação se agravou depois que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) cancelou, em setembro, uma licitação de R$ 74,8 milhões para dragagem do Tapajós.

A decisão ocorreu após avaliação técnica e diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais contrárias às intervenções no rio.
O Ministério de Portos e Aeroportos informou que a contratação dos serviços de manutenção no Tapajós permanece suspensa por decisão do governo federal.

MADEIRA ABAIXO DO LIMITE – Outro corredor importante para o agronegócio mato-grossense, o rio Madeira também apresenta restrições decorrentes da estiagem.
Na estação de Porto Velho (RO), o nível chegou a 3,07 metros em 30 de setembro, após uma queda de 1,37 metro durante o mês.
A referência utilizada para o início das restrições à navegação é de 4 metros. Já a marca de 2 metros indica o limite considerado para a paralisação das operações.

Apesar de estar abaixo do nível de referência para restrições, o Madeira apresenta condições melhores do que as registradas durante a seca histórica de 2024, quando chegou a apenas 49 centímetros em Porto Velho, em 30 de setembro daquele ano.
A previsão para a região indica possibilidade de recuperação dos níveis, com início da subida das águas ainda em outubro.
A hidrovia liga Porto Velho ao rio Amazonas e funciona como alternativa para o transporte de grãos do Centro-Oeste, além de abastecer municípios e comunidades ribeirinhas.
Em 2025, foram transportadas 12,1 milhões de toneladas de soja e milho pelo corredor.

Para garantir a manutenção da navegabilidade, o governo federal informou que mantém contrato de R$ 123,26 milhões para dragagem entre Porto Velho e a foz do Madeira. Os serviços estão no primeiro ano de execução, com conclusão prevista para novembro de 2029.

RISCO PARA A LOGÍSTICA – A situação simultânea dos rios Paraguai, Tapajós e Madeira expõe a dependência de Mato Grosso de corredores de transporte sujeitos às variações climáticas.

O Estado utiliza essas rotas para movimentar parte de sua produção agrícola e alcançar mercados internacionais. Quando o nível dos rios diminui, a operação das embarcações pode se tornar mais limitada e onerosa.

No caso do Tapajós e do Madeira, a preocupação está concentrada no escoamento de soja e milho. No rio Paraguai, os efeitos atingem a navegação pelo Pantanal e sua conexão com os países da Bacia do Prata.

Para o trimestre de outubro a dezembro, o relatório federal prevê chuvas abaixo do esperado em parte da Amazônia e redução da disponibilidade de água nas bacias do Madeira, Negro e Tapajós.

O Ministério de Portos e Aeroportos afirma que mantém o monitoramento das condições dos rios e que eventuais medidas operacionais dependerão dos níveis efetivamente registrados.
Segundo a pasta, quando a profundidade se aproxima dos limites mínimos, são avaliadas alternativas como o alívio de carga ou a interrupção temporária das operações.

Por enquanto, o cenário é de alerta, sem indicação de paralisação generalizada das hidrovias.
Para Mato Grosso, entretanto, a situação reforça a necessidade de acompanhar a evolução da estiagem e seus possíveis efeitos sobre os custos de transporte e a competitividade da produção estadual.

Eduardo Goles / DC

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