Eleições 2026

Entre ter razão e ter paz, eu prefiro a paz! (01)

Uma reflexão sobre política, democracia, maturidade e a disposição de reconhecer que talvez não tenhamos todas as respostas.

Está cada vez mais chato discutir política no Brasil. Talvez no mundo. O debate, que deveria ser um espaço para confrontar ideias, buscar soluções e encontrar caminhos para o desenvolvimento da nação, transformou-se, muitas vezes, em uma disputa de egos, ofensas e certezas absolutas.

Parece que reduzimos todos os problemas do povo, da nação e da gestão pública a uma única explicação: a disputa entre direita e esquerda. Como se a realidade fosse tão simples. Como se tudo o que dá certo tivesse um único endereço ideológico e tudo o que dá errado fosse, necessariamente, culpa do outro lado.

Não é assim que funciona. Ou, pelo menos, não deveria ser.

Os extremos são perigosos, sejam eles de direita ou de esquerda. E não me refiro apenas aos extremos que ocupam os espaços de poder, mas também àqueles que se manifestam nas nossas conversas, nas redes sociais e na maneira como passamos a enxergar quem pensa diferente de nós.

Há quem, à direita, chegue ao absurdo de defender uma intervenção americana em território brasileiro, como se uma potência estrangeira fosse entrar no nosso país pensando prioritariamente nos interesses do povo brasileiro. No outro extremo existe uma desconexão retórica que incômoda no discurso de parte da esquerda contemporânea. Ao mesmo tempo em que se colocam como os guardiões máximos da democracia contra supostas ameaças internas, muitos desses mesmos atores apontam para a China como um exemplo reluzente de eficiência e gestão pública.

O paradoxo é evidente. Não é possível defender a pluralidade política e as liberdades individuais em solo nacional enquanto se aplaude um regime comunista de partido único, onde o Estado dita os ritos, controla a informação e sufoca a oposição. Elogiar o pragmatismo econômico de Pequim ignorando o seu autoritarismo político não é apenas uma contradição ideológica; é esvaziar o próprio conceito de democracia que dizem proteger. E imaginar que uma intervenção estrangeira seja de quem for não traria consequências profundas para nossa soberania, nossas instituições e nossa população é ignorar a própria história.

Nosso papel é defender relações diplomáticas sólidas não é abrir mão da soberania nacional. O Brasil precisa de parceiros, não de tutores.

E como alguém pode falar em defesa da democracia se não aceita sequer ouvir uma opinião diferente da sua?

A pergunta vale para todos nós.

Não existe coerência em defender a liberdade apenas quando ela nos favorece. Não existe compromisso verdadeiro com a democracia quando aceitamos o contraditório somente se ele confirmar aquilo em que já acreditamos.

Nem ao céu, nem ao inferno.

O Brasil não precisa escolher entre a submissão aos interesses de uma potência estrangeira e a tolerância com governos ou movimentos que relativizam liberdades fundamentais. Podemos defender nossa soberania, preservar nossas parcerias históricas, cobrar respeito aos direitos humanos e exigir responsabilidade de qualquer governo, independentemente de sua orientação ideológica.

Mas o que mais tem me incomodado não está apenas nos discursos políticos. Está no que essa radicalização tem feito com as nossas relações.

Estou perdendo a paciência com a maneira como as pessoas têm se tratado. Vejo amigos se digladiando, pais e filhos se afastando, famílias divididas e amizades sendo colocadas à prova por causa de escolhas eleitorais. Pessoas que compartilham histórias, conquistas, dificuldades e afetos parecem, de repente, incapazes de conviver porque uma vota à direita e outra à esquerda.

E me pergunto: chegamos ao ponto de acreditar que a escolha de um candidato define o caráter, a inteligência ou a dignidade de uma pessoa?

Sou de direita. Não tenho vergonha das minhas convicções e não vejo motivo para escondê-las. Mas que direito tenho de desrespeitar alguém simplesmente porque pensa diferente de mim? Em que momento defender minhas ideias me concedeu o direito de diminuir as ideias de outra pessoa?

Isso é democrático?

Tenho amigos e amigas de esquerda. Isso não me faz maior nem menor do que eles. Não me torna mais inteligente, mais consciente ou mais preparado para compreender o Brasil. Significa apenas que temos visões diferentes sobre questões que consideramos importantes.

E eu sei que não vou mudar a maneira como todos eles pensam. Da mesma forma, eles não vão mudar a minha apenas porque discordamos, discutimos ou elevamos o tom de uma conversa.

Talvez nem precisemos mudar uns aos outros.

Talvez precisemos, antes, aprender a ouvir.

Isso não significa concordar com tudo, relativizar princípios ou abandonar convicções. Significa compreender que o respeito não depende da concordância e que uma pessoa não precisa pensar como eu para merecer ser ouvida.

Já fui mais radical. Já olhei para quem pensava diferente e tive a certeza de que estava errado. Acreditava que, se minhas convicções faziam sentido para mim, deveriam necessariamente fazer sentido para todos.

O tempo, a maturidade e a disposição de ouvir o contraditório foram mudando essa percepção. Aprendi que escutar um argumento não significa aceitá-lo. Que compreender uma ideia não significa concordar com ela. E que reconhecer a coerência de um pensamento diferente do meu não me torna menos fiel aos meus princípios.

Ao contrário: pode me tornar uma pessoa melhor preparada para defendê-los.

Foi assim que comecei a entender que o maior risco não está apenas em estar errado. Está em acreditar que jamais podemos estar errados.

Na política, não existe verdade absoluta capaz de encerrar todas as discussões sobre os caminhos de uma nação. Existem fatos, evidências, experiências, resultados, interesses, valores e interpretações que precisam ser confrontados. Existem políticas públicas que funcionam em determinadas circunstâncias e fracassam em outras. Existem modelos que precisam ser revistos, ideias que amadurecem e convicções que, diante de novas evidências, merecem ser reconsideradas.

Na vida não é diferente.

A certeza de hoje pode se transformar na dúvida de amanhã. E não há vergonha nisso. Vergonha é perceber que os fatos apontam para outra direção e, ainda assim, insistir no erro apenas para não admitir que o outro tinha razão.

Precisamos estar dispostos a mudar quando a realidade exigir. Não por conveniência, não por oportunismo, mas por honestidade intelectual.

O Brasil tem um caminho a percorrer. Precisamos crescer como nação, melhorar nossos indicadores sociais e econômicos, fortalecer nossas instituições e construir oportunidades para quem trabalha, empreende, estuda e luta por uma vida melhor. Para isso, precisaremos de boas ideias, políticas públicas responsáveis, gestão eficiente e capacidade de aprender com experiências bem-sucedidas, inclusive aquelas que não nasceram do nosso campo ideológico.

Se uma proposta da esquerda melhora a vida das pessoas, por que deveria ser descartada apenas por sua origem? Se uma iniciativa defendida pela direita produz bons resultados, por que alguém deveria rejeitá-la antes mesmo de examinar as evidências?

O compromisso com o Brasil deveria ser maior do que a fidelidade automática a qualquer partido.

É justamente por isso que proponho esta série de cinco artigos na coluna Jogo Bruto. Quero convidar o leitor a fazer comigo um exercício de reflexão sobre a eleição presidencial e sobre o país que desejamos construir.

No próximo artigo, vamos sair um pouco das paixões e olhar para os resultados. Quero examinar modelos econômicos associados à direita e à esquerda, experiências capitalistas que deram certo e outras que fracassaram, além de exemplos de políticas e gestões estaduais e municipais brasileiras que merecem ser estudados. Não para provar antecipadamente que um lado é superior ao outro, mas para entender quais escolhas produziram resultados, em quais circunstâncias e a que custo.

Nos quatro artigos seguintes, a proposta será avançar nessa reflexão, comparando ideias, experiências e resultados, para que possamos chegar ao momento da escolha eleitoral com mais informação e menos preconceito.

Não quero que o leitor concorde comigo por afinidade ideológica. Quero que pense, questione, pesquise e tire suas próprias conclusões. Não pretendo oferecer uma verdade pronta, mas propor um caminho de análise em que os fatos tenham mais peso do que a conveniência e os argumentos valham mais do que os rótulos.

Meu convite não é à alienação. É exatamente ao contrário: que participemos da política com mais consciência, responsabilidade e disposição para rever nossas posições quando necessário.

Sei que não é fácil. Nunca foi. Somos humanos, temos orgulho, paixões, interesses e a tendência de procurar argumentos que confirmem aquilo em que já acreditamos. E, convenhamos, quando todos parecem preocupados em defender o próprio lado, é difícil não cair na mesma armadilha.

Mas é justamente aí que começa o exercício da maturidade.

Eu continuo sendo de direita. Continuarei defendendo minhas convicções, criticando o que considero errado e apoiando aquilo que julgo melhor para o Brasil. A diferença é que não quero transformar minhas convicções em uma prisão intelectual, nem minha posição política em uma licença para desrespeitar quem pensa diferente.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas se estou certo. É se tenho a humildade necessária para considerar a possibilidade de estar errado.

Entre ter razão e ter paz, eu prefiro a paz. Não a paz comprada com o silêncio, a omissão ou o abandono dos princípios, mas aquela que nasce da capacidade de discordar sem odiar, debater sem humilhar e reconhecer no outro alguém que também pode estar tentando encontrar o melhor caminho.

A eleição vai passar. Os candidatos vão disputar seus votos, os partidos vão defender seus projetos e um deles, ou uma de suas alternativas, sairá vencedor. Mas o Brasil continuará aqui, com seus desafios, suas desigualdades, suas oportunidades e seus milhões de brasileiros que precisam de soluções, independentemente de quem escolheram nas urnas.

Não precisamos pensar igual para construir um país melhor. Precisamos, antes, estar dispostos a pensar.

E deixo ao leitor uma pergunta para levar consigo até o próximo artigo: você está preparado para examinar os fatos mesmo quando eles contrariam aquilo em que acredita?

Porque talvez o primeiro passo para escolher melhor o futuro do Brasil seja reconhecer que a nossa verdade individual não precisa ser a última palavra.

O debate continua. No próximo artigo, vamos colocar as ideias à prova dos resultados. Até lá!

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