Eleições 2026

O apoio de Flávio: quem é de direita, quem se diz e quem não é?

Faltando três dias para a eleição, tem político tentando provar que sempre esteve do lado de Flávio Bolsonaro. O problema é que a história não apaga o passado, e o eleitor também tem memória.

Na reta final de uma eleição, cada gesto ganha peso, cada fotografia vira propaganda e cada declaração pode valer ouro. Em Mato Grosso, a disputa pelo Governo do Estado também passa por uma questão que ultrapassa os limites estaduais: quem tem o apoio de Flávio Bolsonaro e quem, de fato, construiu sua trajetória política dentro do campo da direita?

O sobrenome Bolsonaro tem força no eleitorado mato-grossense, e estar associado a ele virou um ativo político disputado. Mas existe uma diferença entre apoiar um projeto político ao longo dos anos e tentar se aproximar dele quando a eleição bate à porta.

É justamente aí que começa o jogo bruto.

Wellington tem história dentro do PL

Wellington Fagundes não precisa descobrir o caminho do PL em ano eleitoral. Sua trajetória está ligada ao partido, e sua candidatura ao Governo de Mato Grosso foi apresentada por Flávio Bolsonaro como parte do projeto do Partido Liberal no estado.

Os vídeos de apoio trocados entre os dois reforçam essa ligação. Não se trata apenas de dividir uma fotografia ou aparecer no mesmo palanque: existe uma relação partidária construída ao longo do tempo.

E há outro detalhe importante. Em abril de 2025, durante agenda em Mato Grosso, Michelle Bolsonaro fez questão de reconhecer publicamente o trabalho de Mariene Fagundes, esposa de Wellington, na construção do PL Mulher no estado.

Michelle agradeceu a Mariene por ter começado esse trabalho muito antes de o movimento ganhar a dimensão que tem hoje. É um reconhecimento público de uma atuação partidária que não nasceu ontem.

Em política, história conta. Trabalho partidário conta. Relações construídas ao longo dos anos também contam.

Pivetta e o passado que não cabe no santinho

Do outro lado está Otaviano Pivetta, que agora procura se apresentar como um nome alinhado à direita e ao eleitorado bolsonarista.

Mas o passado tem dessas coisas: às vezes, ele aparece justamente quando o presente tenta contar outra história.

Em 2018, quando Jair Bolsonaro disputava a Presidência da República, Pivetta estava em outro campo político. Filiado ao PDT e aliado de Ciro Gomes naquele contexto, ele não economizou críticas ao então presidenciável.

Em entrevista publicada pelo site RDNews, em 19 de abril de 2018, sob o título “Aliado de Ciro, Pivetta critica Bolsonaro e diz que deve ser comediante e não presidente da nação”, o atual governador afirmou:

“Acho Bolsonaro um falastrão, uma pessoa que gosta muito de encantar, habilidoso nas palavras e no humor. Pode ser um comediante, não presidente da República.”

E foi além. Ao criticar a trajetória parlamentar de Bolsonaro e a participação de seus filhos na política, Pivetta declarou:

“Ele é um profissional do Parlamento e das palavras. Botou três filhos na mesma linha. Um carioca que faz 30 anos que é deputado, que formou três filhos parlamentares também, mas que nunca criou uma galinha. Vive fazendo piada e bravata.”

Fonte: RDNews, Jacques Gosch, 19 de abril de 2018.

A declaração está publicada. Não é boato, não é interpretação de adversário e não é uma frase inventada para a campanha. É o registro de uma posição que Pivetta assumiu publicamente naquele momento.

A pergunta é simples: o que mudou nas convicções de Pivetta desde 2018? E o que essa mudança representa para o eleitor que se identifica com a direita?

O problema não é alguém rever suas posições. O problema é querer que o eleitor esqueça as posições anteriores.

Norte Show: a fotografia e o recado

Em abril deste ano, durante a Norte Show, em Sinop, Flávio Bolsonaro esteve com lideranças políticas de Mato Grosso, entre elas Wellington Fagundes e Otaviano Pivetta.

Flávio declarou apoio a Welligton Fagundes em meio aos dois opositores. A declaração foi registrada por veículos de comunicação, entre eles o Estadão Mato Grosso e a Gazeta Digital.

Pivetta pode buscar o voto de quem apoia Flávio Bolsonaro. Pode defender pautas que considera alinhadas à direita e tentar construir pontes com esse eleitorado. O que não pode fazer é tratar a história como se ela começasse no momento em que a conveniência eleitoral recomenda.

Se Wellington tem a identificação partidária com o PL, o apoio público de Flávio e uma relação histórica com a legenda, Pivetta precisa explicar qual é o seu próprio caminho dentro desse mesmo campo político.

A direita não se resume a um vídeo, uma declaração ou uma fotografia. Também envolve trajetória, posicionamentos e coerência.

Natasha sabe de que lado está

Na outra ponta do debate está Natasha Slhessarenko, que assume seu alinhamento com o campo político de Lula.

Aqui, pelo menos no discurso, não há a mesma tentativa de disputar uma identidade política diferente daquela que sua candidatura representa. O eleitor pode concordar ou discordar de suas posições, mas sabe qual é o campo político com o qual ela se identifica.

E isso também faz parte do jogo democrático: apresentar-se ao eleitor com posições que possam ser conhecidas, discutidas e cobradas.

A questão não é impedir mudanças de opinião, nem afirmar que um político esteja proibido de ampliar suas alianças. A questão é saber se o eleitor está diante de uma mudança de convicção ou de uma estratégia eleitoral.

Essa resposta não está em um slogan. Está na trajetória de cada candidato.

O eleitor decide, mas o projeto precisa fazer sentido

Faltando três dias para a eleição, os discursos estão postos. Wellington reivindica sua história no PL e o apoio de Flávio Bolsonaro. Pivetta busca espaço entre os eleitores identificados com a direita, apesar das declarações que fez no passado. Natasha se apresenta alinhada ao campo de Lula.

Cada candidato terá de responder por suas escolhas, suas alianças e suas contradições.

No fim, caberá ao eleitor decidir em quem votar. Ninguém precisa receber uma ordem sobre como escolher seu candidato. Mas o eleitor tem o direito de conhecer a história, comparar os discursos e cobrar coerência.

E existe uma questão que merece atenção especial: o projeto de governo estadual ganha outra dimensão quando se discute seu alinhamento com o projeto federal.

Quem governará Mato Grosso terá de buscar recursos, construir parcerias, defender os interesses do estado e dialogar com Brasília. A relação entre os governos estadual e federal pode influenciar prioridades, articulações políticas e a execução de políticas públicas. Por isso, saber quem estará na Presidência e como cada candidato pretende se relacionar com esse governo não é detalhe: faz parte da escolha.

Quem está defendendo um projeto porque acredita nele e quem está apenas tentando chegar ao poder com a roupa que o eleitor quer ver?

No Jogo Bruto, o discurso pode até mudar. O passado, porém, continua registrado.

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