Menos de um ano depois de voltar a ser internado após ameaças contra a ex-companheira, Lumar Costa da Silva, responsável pelo crime brutal em que matou a própria tia e arrancou o coração dela em Sorriso, recebeu um novo relatório médico favorável à desinternação. Desta vez, porém, a Justiça decidiu não autorizar sua saída imediatamente e determinou uma perícia específica para saber se a periculosidade realmente cessou.
Um novo capítulo do caso Lumar Costa da Silva, que chocou Sorriso e ganhou repercussão nacional, voltou a provocar preocupação. A equipe do Centro Integrado de Atenção Psicossocial Adauto Botelho, em Cuiabá, elaborou um relatório indicando que Lumar apresenta condições clínicas que permitiriam novamente sua desinternação.
Apesar do parecer favorável da unidade de saúde, Lumar não será colocado em liberdade neste momento.
Em decisão proferida no dia 2 de setembro de 2026, a juíza Caroline Schneider Guanaes Simões determinou a manutenção da internação e ordenou que a Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso (Politec) realize, com prioridade, um exame de cessação de periculosidade. Somente depois do resultado dessa perícia a Justiça decidirá se ele poderá retornar ao tratamento ambulatorial e ao convívio social.
LAUDO DIZ QUE LUMAR ESTÁ ESTÁVEL
Segundo o relatório produzido pela equipe do Adauto Botelho, Lumar estaria atualmente cooperativo e apresentaria relativa estabilidade clínica.
O documento descreve que ele permanece lúcido e orientado, com humor estável, discurso organizado, sem delírios, sem agitação, sem comportamento agressivo contra terceiros e sem sintomas psicóticos agudos. A equipe médica considerou essa evolução suficiente para recomendar a desinternação.
A avaliação clínica, entretanto, não foi considerada suficiente pela magistrada para autorizar uma nova saída.
A Justiça quer que uma perícia médico-legal responda especificamente se Lumar possui condições mentais e comportamentais para voltar ao convívio familiar e comunitário sem oferecer risco para ele próprio ou para outras pessoas.
JUÍZA CITA GRAVIDADE DO CRIME E FRACASSO DA PRIMEIRA SOLTURA
Na decisão, a magistrada destacou que o histórico exige cautela redobrada. Um dos principais pontos considerados foi justamente o que aconteceu na primeira oportunidade em que Lumar deixou o hospital.
Ele havia sido desinternado em junho de 2025 para continuar o tratamento de forma ambulatorial em Campinas (SP), sob acompanhamento do CAPS e supervisão familiar.
A experiência, porém, durou poucos meses.
Segundo os autos citados na decisão atual, após retornar ao convívio social Lumar voltou a apresentar comportamentos agressivos e ameaçadores envolvendo a ex-companheira e a própria filha. A situação levou a Justiça paulista a conceder medidas protetivas.
No dia 14 de novembro de 2025, ele voltou a ser preso após ameaças contra a ex-companheira. Três dias depois, em 17 de novembro, foi determinado o retorno à internação. Posteriormente, ele foi recambiado para Mato Grosso e voltou efetivamente ao Adauto Botelho em dezembro.
Para a juíza Caroline Schneider, a tentativa de tratamento em meio aberto fracassou em um espaço de tempo muito curto, circunstância que impede uma nova desinternação baseada apenas na evolução apresentada dentro de um ambiente hospitalar controlado.
LAUDO DE 2025 APONTOU SINTOMAS GRAVES E RISCO
O histórico recente chama ainda mais atenção porque, em novembro de 2025, uma avaliação feita por profissionais do CAPS Nova Era, em Campinas, apresentou cenário muito diferente do observado atualmente.
O documento, assinado por psiquiatra e psicólogo, apontava persistência de sintomas graves e risco à segurança do próprio paciente e de terceiros.
Na ocasião, os profissionais registraram características compatíveis com transtorno afetivo bipolar tipo I com episódios psicóticos e comportamentos relacionados a agressividade, impulsividade e dificuldade para reconhecer os danos provocados a outras pessoas. O relatório considerou que o tratamento apenas pelo CAPS não seria suficiente para garantir a segurança.
Agora, meses depois de voltar ao ambiente controlado do Adauto Botelho e receber medicação supervisionada, o quadro clínico apresentado pela equipe hospitalar é significativamente mais estável.
É justamente essa diferença que levou a Justiça a exigir uma avaliação forense antes de permitir qualquer mudança.
TJ JÁ HAVIA NEGADO PEDIDO PARA TIRÁ-LO DO HOSPITAL
Em janeiro deste ano, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso também analisou uma tentativa da defesa de retirar Lumar do regime de internação.
Em julgamento realizado no dia 27 de janeiro de 2026, o TJMT negou o habeas corpus apresentado pela defesa e manteve a medida de segurança.
A defesa sustentava que a reinternação seria desproporcional e não teria fundamento suficiente. O Tribunal, porém, levou em consideração os episódios posteriores à primeira desinternação, o descumprimento das condições estabelecidas e a necessidade de proteção de terceiros.
JK NOTÍCIAS ACOMPANHOU MEDO DA FAMÍLIA ANTES DA PRIMEIRA SOLTURA
O JK Notícias acompanha o caso há anos e mostrou, inclusive antes da primeira desinternação, a preocupação dos familiares de Maria Zélia.
Em junho de 2024, quando já existia a possibilidade de Lumar receber alta, Patrícia Cosmo, filha de Maria Zélia, contou ao JK que familiares estavam em pânico diante da possibilidade de ele retornar às ruas.
Ela relatou que Lumar demonstrava interesse em voltar a encontrar familiares e que isso aumentava o medo de quem sobreviveu ao trauma provocado pelo assassinato.
Um ano depois, em junho de 2025, a Justiça efetivamente autorizou a saída.
O JK Notícias mostrou que o pai de Lumar foi buscá-lo no Adauto Botelho e que ele seguiria para Campinas, onde deveria permanecer sob acompanhamento e obedecer a uma série de condições.
Entre elas estavam comparecer mensalmente ao CAPS, não deixar a comarca sem autorização judicial, evitar determinados locais e não consumir bebidas alcoólicas ou drogas.
Naquele mesmo período, Patrícia voltou a falar publicamente sobre o medo da família.
“O momento é de terror”, declarou na ocasião. Ela afirmou ainda que a libertação representava o fim da sensação de segurança que os parentes ainda possuíam.
Poucos meses depois, Lumar voltou a ser alvo de medidas judiciais em São Paulo e acabou novamente internado.
O CRIME QUE CHOCOU SORRISO
Lumar Costa da Silva foi preso na madrugada de 3 de julho de 2019, horas depois de cometer um dos crimes de maior repercussão já registrados em Sorriso.
Na noite anterior, 2 de julho, ele matou a própria tia, Maria Zélia da Silva Cosmo, de 55 anos, a golpes de faca dentro da residência.
Depois de matar Maria Zélia, Lumar retirou o coração da vítima e levou o órgão até familiares dela.
Na sequência, ainda houve tentativa de levar uma criança, roubo de veículo e um episódio envolvendo danos a uma instalação de energia elétrica.
O caso ganhou repercussão nacional devido à extrema violência empregada.
LUMAR FOI CONSIDERADO INIMPUTÁVEL
Apesar da brutalidade do crime, Lumar não foi submetido a julgamento comum pelo Tribunal do Júri.
Durante o processo, ele passou por exames de sanidade mental. Em dezembro de 2021, a Justiça homologou o laudo que o declarou inimputável, ou seja, concluiu-se que, em razão de transtorno mental, ele não possuía plena capacidade de compreender o caráter ilícito de seus atos no momento do crime.
Os exames apontaram diagnóstico de transtorno afetivo bipolar tipo I.
Em razão da inimputabilidade, foi aplicada uma medida de segurança, em vez de uma pena de prisão convencional. Em outubro de 2023, Lumar deixou o sistema penitenciário e foi encaminhado ao Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho.
POLITEC TERÁ QUE DIZER SE PERICULOSIDADE ACABOU
Agora, o futuro de Lumar dependerá principalmente da perícia determinada pela Justiça.
A Politec deverá avaliar se houve efetiva cessação da periculosidade social e se ele possui condições clínicas e comportamentais de retornar ao convívio social.
Caso os peritos entendam que uma nova desinternação é possível, deverão indicar também quais mecanismos de segurança seriam necessários, entre eles eventual monitoramento eletrônico, restrições de aproximação, acompanhamento terapêutico e supervisão familiar.
O Adauto Botelho também foi determinado a encaminhar à perícia o prontuário completo e atualizado do paciente, incluindo evolução comportamental, diagnóstico, medicamentos utilizados e respectivas dosagens.
Até que essa avaliação seja concluída e exista uma nova decisão judicial, Lumar Costa da Silva continuará internado no Adauto Botelho, em Cuiabá.
Assim, apesar de o novo relatório hospitalar recomendar a desinternação, não existe até o momento decisão autorizando uma nova soltura.
